Você: Aliado ou obstáculo das pessoas com deficiência?

Por: Consolidar Diversidade

A Lei 13.585/2017 institui a Semana Nacional da Pessoa com Deficiência Intelectual e Múltipla, entre os dias 21 e 28 de agosto de cada ano. O objetivo desse período é promover ações de inclusão social e de combate ao preconceito e à discriminação contra as pessoas com deficiência. Para contribuir com esse debate e reflexão, convidamos o educador social ALEX DUARTE (@alexduarteoficial) que, há 11 anos, desenvolve um trabalho de grande relevância no Brasil e no mundo, relativo ao empoderamento, florescimento da autonomia e independência das pessoas com deficiência. Idealizador de dois projetos premiados dentro e fora do Brasil, o filme Cromossomo21 (@cromossomo21) e a Expedição21, ele compartilha conosco seus aprendizados ao longo dessa linda caminhada.

Segundo Alex, a deficiência que tem uma conotação social de restrição de possibilidades, vem acompanhada por antecipações referentes a impossibilidade de aprender, se empoderar ou de ter autonomia. Os estudos atuais sobre a Síndrome de Down apontam alterações que podem estar relacionadas ao déficit cognitivo, mas nenhum confere tal alteração que determina se este indivíduo será independente ou não. Sendo assim, por que continuamos afirmando que a deficiência vai determinar a performance deste indivíduo?

Vamos à mensagem do Alex para todas as pessoas nessa e em todas as demais semanas do ano:

Quando escrevi o livro “Como Empoderar Pessoas com Deficiência”, relatei as vivências realizadas nas oficinas que promovo para adultos com deficiência. O maior desafio destes participantes era “fugir” dos rótulos recebidos ao longo da vida, muitas vezes focado na deficiência. Isso dificultava a sua performance no trabalho, na sociedade, impossibilitando que eles fortalecessem pensamentos positivos e criassem condições favoráveis para o desenvolvimento. Quando eu, você, ou qualquer outra pessoa sem deficiência, nos tornamos obstáculo (enxergando sempre a marca ou a condição genética), inconscientemente, estamos desempoderando esses sujeitos, fazendo-os acreditar que não são capazes.
A pessoa com deficiência que se reconhece capaz e empoderada cria a consciência das decisões que toma para a sua vida, conhece suas capacidades e possibilidades, tornando-se mais engajado socialmente e menos vulnerável à manipulação. Entretanto, estão mais suscetíveis a perder esse controle ou nem chegam a tê-lo, porque são desautorizados o tempo todo. Imagine quantos vivem em situações de submissão e são desencorajados a ter uma vida com autonomia e liderança? E quem são os sujeitos que, consciente e inconscientemente, têm arrancado o poder das pessoas com deficiência?
Quer você acredite que possa fazer alguma coisa, quer acredite que não, você está certo. Mesmo que tenha ou não as técnicas, o aprendizado e os recursos para fazer, uma vez que você se convence que não pode, os caminhos neurológicos que tornariam isso possível estarão bloqueados. Portanto, aquilo que você pensa ou acredita sobre as pessoas com Síndrome de Down ou outra deficiência diz muito sobre você e irá determinar suas ações para ajudá-las a empoderá-los ou não.
A expressão “empoderamento” foi definida pelo educador brasileiro Paulo Freire, um dos mais influentes pensadores da educação do século XX, embora a palavra empowerment já existisse na Língua Inglesa, significando “dar poder” a alguém para realizar uma tarefa sem precisar da permissão de outras pessoas. O empoderamento é fornecido por meio da informação, conscientização e da prática. Quando entendemos e unimos essas três palavras, ajudamos as pessoas a promoverem uma mudança por conta própria.
Contudo, para que essa mudança tenha valor, ela precisa ser duradoura e consistente. Se você não acreditar que realmente poderá atingi-la, é porque já sabotou a si próprio e, por consequência, sabotará quem você deseja empoderar. Quero afirmar que em nenhum momento estou querendo “normalizar” a Síndrome de Down ou qualquer outra deficiência. O fato não é negar a deficiência, mas buscar deslocar o olhar, que muitas vezes rotula, desacredita e impede de avançarmos em busca de autonomia. Para isso, é preciso fortalecer nossas convicções positivas para avançarmos na busca de mais empoderamento na vida das pessoas com deficiência.
As nossas convicções são como ordens, elas norteiam o que é possível ou impossível, o que podemos fazer e o que não podemos. Modelam cada ação, cada pensamento e sentimento. Nesse sentido, mudar nosso sistema de convicções é fundamental para empoderá-las. Sem assumir esse controle, você pode estudar o quanto quiser, buscar as melhores especializações, mas nunca terá a convicção necessária para atingir resultados positivos.
Ao pesquisar sobre a importância do empoderamento na construção da autonomia das pessoas com deficiência, comecei a desenhar um modelo de imersão que pudesse atender essa proposta. Em cima das queixas e confidências de alguns amigos com síndrome de Down que em toda sua existência jamais haviam ficado longe dos pais, criei a Expedição 21. A ideia central era colocá-los em uma casa sem a presença dos familiares, com a intenção de eliminar o efeito da superproteção, buscando formas de empoderamento e simulando uma sociedade completamente inclusiva, que não duvida, mas sim, aposta e acredita.
A experiência permitiu que os participantes desenvolvessem suas qualidades para alcançar uma vida com mais liberdade de escolha. As abordagens ajudaram os jovens a vencer crenças limitantes (do tipo: eu não posso, não vai dar, eu não consigo, eu não sou capaz). Tais ideias tornam-se empecilhos para o seu crescimento em todos os sentidos, de forma mais efetiva do que os possíveis limites impostos por qualquer tipo de deficiência. O empoderamento também permitiu que os participantes conseguissem olhar para si mesmos a partir de novas perspectivas, ou seja, sem alimentar sentimentos negativos que apenas limitam o seu desenvolvimento profissional, pessoal e emocional. Outro aspecto importante trabalhado foi o autodescobrimento de novos talentos, na definição de metas e objetivos e no planejamento de vida, para que assim a pessoa possa trabalhar seus pontos de melhoria e ver a deficiência como mero detalhe. Isso confere todo o suporte para que a pessoa com deficiência consiga se reconhecer com potenciais, honrar e respeitar sua história e conquistar maior equilíbrio emocional.
A Expedição 21 me ensinou que pessoas com autoestima elevada trabalham com confiança e agilidade e liberam o desejo da ação. Se queremos ajudar no empoderamento, precisamos reforçar todos os dias em nossas práticas de convivência o que as pessoas com deficiência têm de melhor. Através desta experiência, percebi que o sujeito com deficiência está em desvantagem. A primeira batalha que ele enfrenta para se empoderar é vencer o rótulo da limitação que carrega. É preciso derrubar esse muro para ele ver que, atrás disso, existe um mundo completamente possível.
A partir do momento em que compreendemos que o maior obstáculo é o nosso comportamento, teremos ciência de que somos os únicos que podemos alterá-lo. O único controle que temos em nossas mãos é o mundo interior. Cabe a nós decidir o que as coisas significam e o que fazer em relação a elas. O empoderamento é parte existente de toda a raça humana, possuímos a capacidade única de sermos ousados, corajosos e nobres para tornar a nossa vida ou a do outro melhor. A força para empoderar alguém existe dentro de você neste momento. Contudo, quando chegar a hora de fazê-lo, você vai lembrar que é um aliado e reagir com altruísmo em apoio dos que precisam? Espero que um dia possamos nos encontrar como aliados e não como obstáculo, empoderando pessoas e ambientes, operando nas capacidades e não na limitação.

Alex Duarte é Psicopedagogo, Educador Social, Escritor e Diretor do filme e do projeto Cromossomo 21. Há 11 anos é palestrante na área de inclusão social.

A equipe da Consolidar Diversidade é aliada de todas as ações de empoderamento das pessoas com deficiência, pois acreditamos no potencial humano e nas diversas formas de como ele se manifesta.
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