Confira entrevista da Padaria Real para Revista do CIESP Sorocaba

Por: Consolidar Diversidade

Revista do CIESP Sorocaba
Informativo Trimestral – Ano 15 – Edição 110

Padaria Real ganha prêmio na ONU por gestão da inclusão

COM 61 ANOS DE HISTÓRIA, empresa atua há 6 anos na implementação de pessoas com deficiência no quadro de funcionários

A Padaria Real, empresa sorocabana com 61 anos de história, recebeu recentemente o “Prêmio Melhores Empresas para Trabalhadores com Deficiência”, na sede da ONU, em Nova York. Há seis anos a empresa trabalha na implementação da gestão de inclusão das pessoas com deficiência no quadro dos profissionais. O prêmio foi conquistado por atender aos requisitos da categoria “gestão” e, nesse âmbito, foram consideradas as políticas de contratação, treinamento e inserção dos profissionais com deficiência nas diversas equipes da empresa. Nesta entrevista, o gestor da Padaria Real, José Eduardo de Souza, conhecido como Doia, conta os principais desafios e dificuldades enfrentadas durante esse período. Falou também sobre a diferença de fazer um trabalho que vai além do que a legislação trabalhista exige e sobre a importância do reconhecimento através do prêmio conquistado. “Com certeza esse reconhecimento aumenta, e muito, a nossa responsabilidade. Esperamos poder inspirar mais empresas a também realizar um trabalho como esse. Acreditamos que é disso que o mundo precisa: de um trabalho como esse, voltado para o bem da humanidade. É isso o que representa esse prêmio pra gente”, afirmou Doia. Confira a entrevista completa:

Qual é a história da inclusão dentro da Padaria Real e quando começou?
Doia – Começamos há seis anos, quando nos vimos diante da lei de cotas, que nos obrigava a contratar pessoas com deficiência. Então nos preocupamos em localizá-las para então contratá-las. Mas logo percebemos que não seria possível apenas contratá-las. Teríamos que preparar nossas equipes para receber essas pessoas. Foi quando procuramos nos informar e assistimos a uma palestra da Consolidar, empresa que, desde então, tornou-se uma grande parceira da Padaria Real e que nos auxilia na concepção e implantação de nosso programa de diversidade e inclusão. Marcelo Pires, da Consolidar, foi quem nos orientou em todos os passos que tomamos nesta gestão e foi quem também nos recomendou a inscrição para este prêmio. A partir desse programa entendemos como o mundo das pessoas com deficiência funciona e como nós estávamos limitados na percepção das potencialidades delas. A Consolidar nos fez olhar para dentro primeiro, nos preparar, para depois fazer a gestão da inclusão, com foco no que essas pessoas são capazes de fazer e não no que elas não são capazes de fazer.

Como vocês descobriram que dar emprego para pessoas com algum tipo de deficiência seria mais do que cumprir a legislação trabalhista do Brasil?
Foi justamente fazendo essa transição entre a lei e a nossa gestão de pessoas com e sem deficiência, mudando o nosso olhar. Isso correu mediante um processo de conscientização. Nós mudamos primeiro, aperfeiçoamos a nossa própria concepção a respeito das capacidades humanas. Partimos não da busca pela igualdade, mas do objetivo de alcançar a equidade. A partir da diferença entre esses dois conceitos é que tivemos ciência de que não temos como fazer efetivamente uma gestão justa para todos se dermos iguais condições para todos. Sabemos que há aqueles que precisam receber uma atenção especial, capaz de compensar eventuais desvantagens inerentes às suas características. Então, procuramos nos conscientizar, direção e equipe, da necessidade de apoio que demandam as pessoas com deficiência, que devemos evitar o preconceito e eliminar a ideia de que as deficiências limitam. E que há muitas oportunidades que podem favorecer a todos se soubermos mudar o nosso olhar com relação às deficiências. Temos que olhar para a capacidade que cada um tem, tenha a característica que tiver.

Quais são as maiores dificuldades enfrentadas na hora de colocar em prática as políticas e programas de responsabilidade social, inclusão e diversidade?
Os desafios são basicamente promover essa conscientização em todos os níveis, a começar pelos líderes, passando pelas equipes e também integrando os clientes nessa inclusão. Para isso também contamos com os embaixadores da diversidade e da inclusão. Simultaneamente ao processo de conscientização, que está permanentemente sendo realizado, esses embaixadores cuidam para que essa integração se torne plena. Nós acreditamos que as horas de formação são fundamentais, e investimos nelas, mas também sabemos que os desafios se dão no dia a dia, nas mais diversas situações. Por isso, precisamos ter pessoas sempre atentas para garantir que as orientações recebidas em treinamentos resultem em atitudes efetivas, com todo o apoio necessário que nossas equipes já demonstraram serem capazes de oferecer.

Quantas pessoas nesse perfil estão contratadas e em quais áreas elas atuam?
Atualmente, dos 728 colaboradores, 30 são pessoas com deficiência. Entre elas, estão o auxiliar de produção Celso Inácio dos Santos (41), com deficiência visual; o padeiro Fauze Kamel Abdouni (40), com surdez; o atendente Felipe de Oliveira Mariano (21), com má formação congênita em membros superiores; a atendente Maria Clara Ramos Rosa (26), com deficiência mental leve; o auxiliar de produção Samuel da Silva Mendes (25), com deficiência intelectual leve; e o fiscal de loja Sandro Feliciano Leite (44), com deficiência física. Como você pode ver, eles estão nos mais diversos postos de trabalho, com total contato entre colegas, supervisores e clientes. E é por isso que a nossa gestão funciona. Nosso objetivo é fazer a pessoa encontrar seu espaço entre seus pares e tornar-se produtiva convivendo com todos. É diferente da gestão que trata da lei de forma protocolar, onde o profissional com deficiência pode muito bem ser alocado em funções que independem da integração. Na Padaria Real todos trabalham juntos, tenham ou não deficiência.

Quais foram os desafios – infraestrutura, integração, gestão, capacitação, adequação – que a empresa enfrentou ou enfrenta?
Estamos em um processo. Temos muito a avançar. Hoje, ganhamos um prêmio que reconhece a nossa gestão. Mas podemos ainda nos aperfeiçoar na questão da acessibilidade, por exemplo. Diferentemente da Real Boa Vista, inaugurada mais recentemente, em 2014, com estrutura de acessibilidade prevista em projeto, nossas três primeiras lojas estão se adaptando aos poucos – muito embora essa questão não se configure num impedimento. Justamente porque contamos com uma equipe sensibilizada e disposta a atuar quando necessário, oferecendo um atendimento cordial, respeitoso, solidário, amigo. Mas é claro que temos noção dos recursos já disponíveis para ampliar o conforto e a segurança das pessoas que necessitam de recursos especiais para a mobilidade, por exemplo. E essas tecnologias proverão melhores condições de atendimento. Essa parte material também está no nosso radar.

Qual a importância desse prêmio e como usá-lo para incentivar outras empresas?
O “Prêmio Melhores Empresas para Trabalhadores com Deficiência” é um reconhecimento numa esfera de representatividade global, pois é concedido pela Organização das Nações Unidas, a ONU. E é incomum que uma empresa com as nossas características o receba. Por isso nos consideramos muito privilegiados. Sermos a menor empresa dentre as grandes corporações que lá estiveram recebendo o mesmo prêmio faz com que acreditemos ainda mais no nosso trabalho. Mais do que nunca, sabemos do nosso potencial e da nossa efetiva atuação no mundo, do que somos capazes. E o fato de existirem pessoas importantes ligadas às causas humanas que valorizam o que nós também valorizamos nos coloca numa ordem mundial, numa corrente do bem, de incrível impacto social. E talvez seja esse o maior dos legados que deixamos: que vale a pena fazer o melhor, porque sim, há olhos que nos enxergam. Há quem veja o Brasil como ele deve ser visto, com o brilho que temos também na gestão das nossas empresas. E, acima de tudo, que veja o quanto somos hospitaleiros e socialmente responsáveis com a nossa própria gente, especialmente com aqueles que dependem da nossa mão estendida, antes de tudo e de todos. Por tudo isso também recomendamos às empresas que se voltem à inclusão da forma mais séria possível, independentemente da lei de cotas.


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