Não basta ser contra o racismo, é preciso combate-lo efetivamente!

Por: Lincoln Tavares de Melo

O Brasil foi o último país da América Latina a abolir a escravidão.

Hoje, 21 de março, “celebramos” o Dia Internacional pela Eliminação da Discriminação Racial, instituído pela Organização das Nações Unidas – ONU em memória à tragédia que ficou conhecida como “Massacre de Shaperville”, que aconteceu no em 1960, na cidade de Joanesburgo, na África do Sul. Na ocasião, vinte mil negros e negras protestavam contra a lei do posse (que os obrigava a portar cartões de identificação, especificando os locais por onde eles poderiam transitar na cidade), quando se depararam com tropas do exército, que abriu fogo contra a multidão, matando 69 pessoas e ferindo outras 186. Ainda segundo uma resolução da Assembleia Geral da ONU (2014), estamos em meio a “Década Internacional dos Afrodescendentes” (de 2015 a 2024), que tem como objetivo de reforçar o combate ao preconceito, à intolerância, à xenofobia e ao racismo.

É vergonhoso constatar que o Brasil foi o último país da América Latina a abolir a escravidão, em 1888. Portanto, há 130 anos incompletos, fato que, à luz da história é considerado como “história recente”. Entre as razões políticas do caráter tardio tomado pela abolição no Brasil, pode-se citar a demora da campanha abolicionista, em particular no Rio de Janeiro. A rentabilidade do trabalho escravo teria permitido prolongar o sistema escravista quase até o fim do século. Mas a pressão abolicionista provocou a mudança das expectativas dos fazendeiros fluminenses. Para Joaquim Nabuco, José do Patrocínio, Luís Gama e outros, a abolição foi um passo importante para a democratização do Brasil. Vale dizer que os quatro séculos de escravidão obviamente não “sumiriam como passe de mágica” com a Lei Aurea e seus profundos dois parágrafos:

– Art. 1: E declara extinta desde a data desta lei a escravidão no Brasil;

– Art. 2: Revogam-se as disposições em contrário.

Percebe-se como esse fato histórico explica muito da triste cultura que perpetuamos ao dizer que “no Brasil existem leis que pegam e leis que não pegam”. Oras! Lei não tem que “pegar”, tem que ser cumprida, não é mesmo? Mas como extinguir uma escravidão profundamente arraigada na sociedade brasileira sem ao menos explicar razoavelmente como isso será feito? Como garantir à população negra o direito à terra e ao trabalho em pé de igualdade com brancos e imigrantes europeus? Imigrantes aliás que recebiam “incentivos” para adquirir terras no Brasil em detrimento dos negros e negras que mal conseguiam reivindicar seus “direitos” já que, até então, não tinham acesso formal à educação? Será que era só se fazerem valer da “meritocracia”?

Meritocracia, aliás, que ignora o levantamento feito pela ONU que mostra, por exemplo, que 70% das pessoas que vivem em situação de extrema pobreza no Brasil são negros e que o salário médio da população negra no país é 2,4 vezes mais baixo que o dos brancos. Além disso, 80% dos analfabetos brasileiros são negros e mais de 40% das vítimas de homicídios no país são negros de 15 e 29 anos. Além disso, a cada 4 mortes violentas, 3 são de pessoas negras e mais de 60% da população carcerária é formada também por pessoas negras. Aqui a violência contra as mulheres negras tem crescido, seja a violência doméstica, o abuso sexual ou a violência obstétrica.

No mercado de trabalho os dados não são menos vergonhosos. Segundo informações da Agência Brasil, por meio da representante da Organização Internacional do Trabalho (OIT) Thaís Faria, dados mostram a continuidade desse modelo de discriminação e racismo. “Quando olhamos os dados sobre salários e sobre informalidade, vemos como a situação é extremamente real e cruel. A média de salário do homem branco é R$ 2.507; a da mulher branca, R$ 1.810; a do homem negro, R$ 1.458; e a da mulher negra, R$ 1.071”, disse Thaís. Quando o recorte é o trabalho informal, a mulher negra tem a maior taxa de informalidade no mercado de trabalho no Brasil. “Vemos, por exemplo, que, na categoria das trabalhadoras domésticas, quase 90% são mulheres negras”, ressaltou a representante da OIT. Ela acrescentou que grande dessas mulheres é chefe de família e que a categoria das domésticas é uma das que mais sofrem de depressão, inclusive pela instabilidade no trabalho.

Portanto, não basta se dizer “contra o racismo” e, no caso das pessoas brancas, deixar de refletir sobre os seus incontáveis privilégios e como o racismo está intrinsicamente estruturado em todas as camadas da nossa sociedade. O racismo não pode ser visto isoladamente, apenas por meio da nossa visão de mundo e de nossas experiências pessoais. Segundo o professor Leandro Karnal, “o racismo é, tanto um problema patológico, como baixa inteligência, como falta de caráter. É uma combinação das três coisas!” É preciso combate-lo efetivamente.


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