Visibilidade Trans – Dia de informação, reflexão e exercício da cidadania.

Por: Lincoln Tavares de Melo

Há exatos 15 anos, no dia 29 de janeiro, 27 travestis, mulheres e homens trans participaram do lançamento da campanha “Travesti e Respeito”, do Departamento de DST, AIDS e Hepatites, do Ministério da Saúde, no Congresso Nacional, em Brasília. Desde então, o dia 29 de janeiro é celebrado por ativistas travestis, transexuais, gays e lésbicas como o “Dia da Visibilidade Trans”. Essa foi a primeira campanha nacional idealizada e organizada pelas próprias pessoas trans.

Entendemos que dias como esse são muito importantes para disseminarmos informação e estimularmos a expansão da consciência para uma maior compreensão do universo das pessoas que compõe o segmento T (trans), suas lutas, demandas e, infelizmente, sofrimentos, já que vivemos num país que mais mata pessoas transexuais no mundo. Sim, no mundo! Foram 868 assassinatos de travestis e transexuais nos últimos oito anos segundo a ONG Transgender Europe (TGEu). Estamos falando não penas de intolerância, preconceito e ódio, mas também de violência generalizada, já que essas questões dizem respeito a toda a sociedade – direta ou indiretamente, eu, você que está lendo esse artigo, nossos amigos e familiares.

São histórias absurdas, difíceis de digerir, como a de um pai que espancou até a morte uma criança de 8 anos para ensiná-la “a ser homem”, porque ela vestia roupas femininas e rebolava enquanto lavava a louça (Rio de Janeiro, em 2014). Há também a história relatada pelo monitoramento da TGEu, que conta a história de uma garota trans de 13 anos de Araraquara (SP), vítima de exploração sexual, encontrada com 15 facadas pelo corpo, incluindo a cabeça e a face, além de uma fratura no crânio. Em outra ocorrência, em 2010, Erica, 14, levou 11 tiros em Maceió. Vanessa, também de 14 anos, recebeu ameaças de morte da própria avó e foi estrangulada, em 2014, em Angélica (MS). Terrível.

Por conta de toda essa violência e intolerância essas pessoas acabam vivendo (ou sobrevivendo) à margem da sociedade e são empurradas praticamente sem alternativas para uma vida de constante perigo. Estima-se que 90% das pessoas trans recorrem à prostituição em algum momento de suas vidas por não conseguirem oportunidades no mercado formal de trabalho segundo estimativa da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). Ainda são tímidas e pontuais as iniciativas que procuram dar oportunidades de inclusão socioeconômica para esse público e movimentos como o Fórum de Empresas e Direitos LGBT, apoiado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), são um alento e a esperança de que mais empresas (especialmente as nacionais, já que o Fórum é formado majoritariamente por multinacionais), possam dar a sua contribuição para diminuir os dados relatados acima.

Além do Fórum, há outras iniciativas dignas de nota, como por exemplo, a Casa 1, uma organização localizada na região central da cidade de São Paulo e financiada coletivamente pela sociedade civil. Sua estrutura é orgânica e está em constante ampliação. Além da república de acolhida para pessoas LGBT+ (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgêneros e mais todas as outras designações) expulsas de casa por suas orientações afetivas sexuais e identidades de gênero, o projeto é também um centro cultural. A estrutura do centro cultural se divide em duas grandes estruturas: as três salas do casão da Rua Condessa de São Joaquim, e os seis espaços do galpão localizado na Rua Adoniran Barbosa. A Casa 1 hoje acolhe 18 moradores (as), sendo três mulheres e dois homens trans e os demais lésbicas e gays.

Respeitar a dignidade dessas pessoas passa por compreender o seu posicionamento como indivíduos. Ou seja, respeitar a sua identidade de gênero, orientação afetiva-sexual, orientação e expressão de gênero. Mas isso não significa apenas “saber de que forma chamá-las”, ou mesmo como “se referir” a uma pessoa trans. Essa talvez seja a menor das questões. Até porque, o respeito começa quando perguntamos a elas como se reconhecem, já que são elas que definem a sua identidade (auto-identificação) e não um “manual de boas práticas LGBT+”. Portanto, se cabe alguma “dica”, é tratar todas as pessoas como você gostaria de ser tratado ou tratada: com respeito – que é diferente de “tolerância”, que remete à “tolerar”, pois ninguém é obrigado a, digamos, concordar com a maneira que o outra vive ou se expressa, mas nós podemos e devemos respeitar. O respeito aproxima, a tolerância distancia.

No final das contas, estamos falando de algo absolutamente abrangente e que merece cuidado e informação para se tornar conhecimento. O “T” da sigla LGBT+ (Lésbicas, Gays, Bissexuais e o sinal “mais” para todas as demais denominações) se refere às pessoas Transgênero. A pessoa transgênero, ou apenas “trans”, é aquela que possui uma identidade de gênero – que é como a pessoa se reconhecesse, diferente do sexo biológico. Ou seja, a pessoa pode nascer com o sexo biológico feminino, mas ao longo da vida se reconhecer como homem, se tornando, portanto, um “homem trans”. O mesmo pode acontecer com uma pessoa que nasça com o sexo biológico masculino, mas que ao longo da vida se reconheça como mulher, então, essa pessoa se identifica como sendo uma “mulher trans”.

Já no caso das travestis, são pessoas que nascem com o sexo masculino e tem identidade de gênero que transita entre o masculino e o feminino, assumindo papeis de gênero diferentes daqueles impostos pela sociedade. Ou seja, “uma travesti”, e não “um travesti”, como comumente ouvimos e está equivocado, é aquela pessoa que, mesmo assumindo um papel de gênero feminino (roupas e comportamento, por exemplo), se reconhece também como homem e lida naturalmente com o seu órgão genital. Cabe aqui um parênteses para dizer que a diferença básica entre transgênero e travesti é que as travestis estão, digamos, embaixo do guarda-chuva transgênero, pois a pessoa trans pode ou não manifestar a necessidade de realizar modificações corporais (tratamento com hormônios e redesignação sexual, por exemplo) com o intuito de adequar seus atributos físicos à sua identidade de gênero. Já as travestis, como já dissemos, podem se expressar como sendo do gênero feminino, mas sem a necessidade de promover uma cirurgia de redesignação sexual (comumente chamada de “mudança de sexo”).

Complicou? Por isso que é importante termos um dia da “visibilidade trans”, para transformar (ou pelo menos tentar transformar) o medo e a dúvida em respeito, empatia!

A Consolidar Diversidade aborda estas e outras questões com metodologia própria, baseada na educação andragógica (educação para adultos) trabalhado todos os pilares da diversidade / grupos de afinidade. Saiba mais clicando aqui.

Lincoln Tavares de Melo, educador na Consolidar – Soluções em Diversidade e Inclusão.


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