Masculinidade tóxica. A Gillette provocou, e agora?

Por: Lincoln Tavares de Melo

Quem ensinará para os responsáveis pelos mais de 1 milhão de dislikes (maciçamente de homens) que o termo “masculinidade tóxica” está inserido num contexto de discussão das características do machismo?

Voltando à vaca fria – conhecida expressão popular – encerramos essa semana em meio à discussão sobre a propaganda veiculada pela Gillette nas redes sociais – “We Belive – The Best Man Can be?” (Nós acreditamos – É o melhor que um homem pode conseguir?”) que deu o que falar ao fazer, digamos, uma reflexão, sobre comportamentos reconhecidamente machistas relacionados ao assédio, violência e bullying sofrido por mulheres e meninos. É inegável a contribuição da peça publicitaria para provocar toda a discussão que provocou.

Li vários textos, curtos e longos, falando sobre o tal vídeo e, salvo pouquíssimas exceções, a sensação que tenho é de que se trata de mais um “fenômeno da carroça vazia”. Ou seja, muito barulho e pouco problematização acerca dos comportamentos machistas. E isso significa que, ao contrário do que disse o diretor da Gillette na América do Norte, Pankaj Bhalla, ao afirmar que já esperava a polêmica, mas que o mote da peça (…) “não é sobre masculinidade tóxica. É sobre homens tomando mais ação todos os dias para dar o melhor exemplo para a próxima geração”, esse tipo de comunicação não me parece muito adequada se o desejo era de “sensibilizar”.

Não estou dizendo aqui que não devemos utilizar as redes socias e a publicidade para propor a discussão de temas polêmicos e carregados de tabus. Certamente devemos. Mas a forma, ou o meio de provocar a discussão é que me incomoda. Até a tarde desta sexta-feira (18/01), o vídeo já havia sido visualizado mais de 20 milhões de vezes, com um status de 547 mil likes (curtidas) e mais de 1 milhão de “dislikes” (pessoas que não curtiram). E como consequência destas “avaliações”, muitos escreveram textos, ora xingando os homens que não curtiram, ora questionando as “reais intenções” da marca que pertence ao grupo da Procter & Gamble.

O que estou tentando dizer é que esse tipo de abordagem pode muito mais reforçar visões estereotipadas e preconceituosas do que mudar, ou expandir a consciência destas mesmas pessoas que manifestam esse comportamento desprezível. Ou seja, tudo bem para quem “deu um like”, o problema são aqueles que uivaram de ódio ao vestirem a carapuça da “masculinidade tóxica”. Será esse o caminho? A Gillette bateu. Ok. Digamos que essa “chacoalhada” é necessária. Mas e agora? Como chamar para a discussão, de maneira não-violenta, esses mesmos homens (e, pasmem, mulheres) que se revoltaram com a mensagem?

Trabalhamos na Consolidar – Diversidade nos Negócios, com processos de educação andragógica (educação para adultos), que nos proporcionam exercitar, entre outras coisas, uma relação horizontal entre educador e educando, uma troca constante de saberes, que busca observar e equalizar os “níveis de consciência” e interesses de cada um. Neste sentido, de certa forma, se invertêssemos o roteiro da referida propaganda, que começa reforçando tudo o que há de negativo no comportamento masculino (masculinidade tóxica) para, somente depois, transmitir uma mensagem positiva para educar as novas gerações, talvez, conseguiríamos resultados diferentes.

É por isso que, além da andragogia, também usamos elementos da Comunicação Não-Violenta (CNV) para facilitar a comunicação empática que exercite o não-julgamento, a expressão de sentimentos e a forma correta de verbalizar um pedido. Neste sentido, quando há uma comunicação que, aparentemente, julga e generaliza os comportamentos masculinos como primeira mensagem, trazendo a masculinidade tóxica como mote e não as possibilidades de explorar novas masculinidades, podemos inviabilizar uma conexão com o nosso interlocutor.

A saber: bullying, machismo, e todas as formas de violência (expressas na peça publicitária) são absolutamente desprezíveis e reprováveis. Precisamos refletir e expor sim essas condutas, mas, repito, a forma deve ser debatida com mais profundidade. Precisamos falar com os homens sobre isso, mas talvez tenhamos que mirar mais no coração (consciência) e menos no estomago.

Lincoln Tavares de Melo, educador na Consolidar – Diversidade nos Negócios.


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