Novas Masculinidades – O que significa “ser homem” no século XXI?

Por: Lincoln Tavares de Melo

Essa pergunta é, sem sombra de dúvida, inquietante para a maioria dos homens. Até porque, questionar a masculinidade pode nos levar para um campo absolutamente desconfortável: a fragilidade. Sim. Os homens são criados em sua maioria para não demonstrar fragilidade ou nada que lembre essa característica (delicadeza, impermanência, vulnerabilidade, fraqueza). Afinal de contas, levante a mão o homem que nunca, nunca ouviu a frase: “Isso não é coisa de homem”. Ou então: “homem não chora”. E pior: “deixa de ser mulherzinha”, como ser mulher fosse sinônimo de tudo que o homem não pode ser. Desde sempre somos ensinados a não demonstrar sentimentos que apontem para essa tal fragilidade.

Pois é. Precisamos conversar sobre isso. Pois ser homem ao longo da história constitui, infelizmente, sinônimo de violência, de intolerância, de ódio e, porque não dizer, de tristeza, infelicidade. E para cada uma destas inferências cabe o embasamento de dados concretos e estarrecedores:

Violência contra as mulheres 

– Uma mulher é estuprada a cada 11 minutos no Brasil;

– Uma mulher é assassinada a cada duas horas no Brasil;

– 503 mulheres são vítimas de agressão a cada hora no Brasil;

– Cinco mulheres são espancadas a cada 2 minutos no Brasil.

São dados terríveis e nos levam a refletir o porquê dos homens agredirem e violentarem tanto as mulheres. Você homem, já se fez essa pergunta? Difícil dessa perspectiva, não é? E não venha dizer que os homens são “violentos por natureza”, porque essa não cola. É a relação “pessoa e ambiente” que fomenta essa animosidade. Ou será que você acha natural os meninos brincarem “de lutinha”? Sim. Os meninos são estimulados a serem agressivos desde sempre, pois isso é sinônimo de ser menino e é aceito, relativizado pelas relações sociais.

As meninas aprendem que devem cuidar da casa, ajudar a mamãe e, de quebra, se houver um ou mais irmãos (meninos), elas ficam responsáveis também por eles. E essa é uma carga dificílima de suportar sozinha. A ideia de uma “supermulher”, ou “supermãe” oprime e deixa as mulheres esgotadas. Enquanto a ideia de ser menino está cercada, desde sempre, de um sem número de privilégios. Mas ser o homem, de acordo com os padrões sociais históricos, também significa ser submetido a um “check-list da masculinidade” que precisa ser atendido a todo o tempo.

O homem tem que: ser heterossexual, fisicamente apto, corajoso, forte, no controle, ativo, sexualmente experiente, prontamente preparado para o sexo, de fala firme, não demonstrar emoções, saber se defender, não pode chorar, sexualmente impositivo, trabalhador, provedor, não pode cometer erros, não pode desistir, tem que aguentar o tranco, ser competitivo, bem sucedido e dominante em relação à mulher. (extraído do documentário: “Precisamos falar com os homens”, um projeto da ONU Mulheres, Papo de Homem, Questto Nó Research e Grupo Boticário).

Paternidades possíveis 

A participação dos homens na família, enquanto cuidadores, de forma responsável e não violenta é positiva para os próprios homens. Pesquisas realizadas na África do Sul e no Brasil sugerem que os homens com baixa renda, jovens e solteiros, em cenários caracterizados por elevados índices de violência adotam, por vezes, comportamentos mais pró-sociais depois do nascimento de filhos e filhas. Além disso, um estudo do Instituto Sueco de Saúde Pública revelou que os homens que escolheram usufruir de 30 a 60 dias da licença paternidade reduziram em 25% o risco de mortalidade precoce se comparado com outros homens que não usufruíram da licença paternidade. (Fonte: Instituto Promundo) 

Ódio, tristeza, infelicidade

Todo esse turbilhão de expectativas e imposições faz com o que o homem literalmente não aguente o tranco e, em muitos casos, acabe tirando a própria vida. Um levantamento feito pela Organização Mundial da Saúde (OMS) mostra que, no ano de 2016, um suicídio acontecia a cada 40 segundos. Em 2015, o mesmo órgão divulgou que foram registrados 800 mil casos de suicídios no mundo, sendo que 75% destes são referentes a países de média e baixa rendas. O cenário no Brasil também é alarmante, pois o país ocupa o 8° lugar no ranking de países com mais casos de suicídios no mundo, chegando a ultrapassar 12 mil por ano. Seguindo os índices de outros países, no Brasil, os homens são os que mais se matam numa faixa etária entre 15 e 29 anos. Enquanto o índice das mulheres é de 2,6 por 100 mil pessoas, o dos homens salta para os 10,7.

Ainda segundo a OMS: ““Morar em um país com igualdade de gênero beneficia a saúde de um homem e transparece em menores taxas de mortalidade, maior bem-estar, metade do risco de depressão, maior chance de fazer sexo com proteção, menores taxas de suicídio e 40% a menos de risco de morrer de forma violenta”. Ou Seja, enquanto manter o status quo do “homem / macho / padrão” significa menos qualidade de vida, violência e até mesmo morte, buscar novas representações de masculinidade significa viver mais, com mais qualidade e bem mais feliz.

Novos papeis / velhos paradigmas

O ambiente de trabalho e a discussão sobre “novas carreiras”, ou mesmo o simples exercício de não estigmatizar determinadas atividades profissionais como sendo “de homem ou de mulher”, também contribui para a construção de novas masculinidades. Também segundo a Promundo Brasil: “Comparando com os grandes avanços da inclusão das mulheres nas profissões historicamente masculinas, incluindo os campos ciência e tecnologia, engenharia e matemática, por exemplo, o movimento dos homens em direção a profissões de maioria feminina é muito pequeno. Trazendo mais homens para as áreas de prestação de cuidados na saúde, educação, tarefas administrativas e de cuidado doméstico, haverá a aceleração das mudanças sociais através da maior aceitação e valorização do cuidado por todos os gêneros”.

Ou seja, podemos dizer que um grande, mas possível exercício por parte dos homens, é o de questionar as suas masculinidades, o que significa desconstruir ou “desaprender” modelos que nos foram impostos ao longo dos tempos sobre o significado de “brincadeira de menino” e “brincadeira de menina”; “trabalho de mulher” e “trabalho de homem” e também, por que não, o papel do homem na parentalidade e o papel da mulher comparativamente.

Precisamos, urgentemente, falar sobre isso!

 

Lincoln Tavares , educador na Consolidar Diversidade nos Negócios.


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